Temporal deixa uma pessoa morta, 28 veículos submersos no túnel do Anhangabaú e expõe falha no bloqueio preventivo em São Paulo

  • por Redação
  • Thursday, 15 de October de 2026
Chuva intensa desta quarta-feira (14) provocou alagamentos, deslizamentos e congestionamentos superiores a mil quilômetros na capital paulista. Protocolo da CET previa fechamento antecipado do túnel, mas um dos sentidos permaneceu aberto até a inundação.(Foto: Divulgação)

 

Uma forte tempestade atingiu São Paulo na tarde desta quarta-feira (14), deixando uma pessoa morta, dezenas de veículos submersos, vias interditadas e prejuízos em diferentes regiões da capital.

O episódio mais grave de alagamento ocorreu no túnel do Vale do Anhangabaú, na região central, onde 28 veículos, sendo 26 carros e dois ônibus, ficaram presos pela inundação.

A ocorrência também levantou questionamentos sobre o cumprimento dos procedimentos preventivos da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que preveem o bloqueio antecipado da passagem subterrânea diante do risco de chuvas intensas.

A água avançou rapidamente pelo túnel, surpreendendo motoristas e passageiros que não conseguiram deixar o local com seus veículos. Em poucos minutos, automóveis começaram a boiar, colidir uns contra os outros e ficar amontoados.

Algumas pessoas precisaram abandonar os carros pelas janelas, enquanto outras subiram nos tetos para escapar da inundação. O Corpo de Bombeiros foi acionado e resgatou pelo menos quatro pessoas que ficaram ilhadas.

O episódio ganhou maior repercussão após a divulgação de informações sobre um protocolo da CET, publicado em dezembro de 2006, que estabelece medidas específicas para situações de chuva no Vale do Anhangabaú.

O documento prevê a presença permanente de um operador de trânsito na região, durante as 24 horas do dia, além da possibilidade de bloqueio parcial ou fechamento completo do túnel quando há informações sobre a aproximação de precipitações intensas.

O objetivo do procedimento é reduzir antecipadamente a circulação de veículos na passagem subterrânea, evitando que motoristas e passageiros sejam surpreendidos pelo acúmulo de água. A operação deve ser orientada pelas informações meteorológicas repassadas pelo Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE).

Entretanto, nesta quarta-feira, o sentido Zona Norte permaneceu aberto antes da inundação, apesar dos alertas meteorológicos. A capital paulista entrou em estado de atenção para alagamentos às 15h25, enquanto a CET informou que as interdições começaram somente às 15h38, aproximadamente 13 minutos depois. A Defesa Civil também havia emitido alertas severos sobre a possibilidade de chuva forte, raios e ventania.

A companhia afirmou que adotou o protocolo de Estado de Atenção, mas não esclareceu por que o sentido atingido permaneceu aberto antes de a água invadir a pista. A situação passou a ser questionada diante da existência de procedimentos específicos para prevenir esse tipo de ocorrência.

Motoristas que estavam no túnel relataram momentos de desespero. Um condutor de aplicativo afirmou que o trânsito já estava parado quando a enxurrada começou a avançar e que chegou a observar um veículo da CET nas proximidades. Segundo seu relato, não houve orientação preventiva suficiente para retirar os automóveis ou impedir a entrada de novos veículos antes do alagamento.

A Prefeitura de São Paulo, administrada pelo prefeito Ricardo Nunes (MDB), informou que as seis bombas responsáveis pela drenagem do túnel permaneceram funcionando durante toda a tempestade, sem apresentar problemas técnicos. Entretanto, o sistema não conseguiu escoar o volume de água acumulado.

Conforme o CGE, foram registrados 42 milímetros de chuva em apenas 40 minutos na região do Anhangabaú. O acumulado corresponde a aproximadamente 37% da média de precipitação esperada para todo o mês de outubro na capital, equivalente ao volume previsto para cerca de 11 dias.

A administração municipal destacou que o sistema de drenagem é acompanhado permanentemente por sensores e câmeras. Após a inundação, equipes de limpeza, guinchos e caminhões de bombeamento emergencial foram mobilizadas para retirar a água, remover os veículos danificados e restabelecer a circulação. Uma faixa do túnel foi liberada por volta das 19h14.

O alagamento também trouxe à memória uma ocorrência semelhante registrada em 1º de março de 1999, quando aproximadamente 160 veículos, incluindo três ônibus, ficaram submersos no mesmo túnel. Naquela ocasião, a água chegou a atingir o teto da estrutura, com aproximadamente cinco metros de altura. O local também voltou a apresentar problemas de inundação em 2021.

Além da situação no Anhangabaú, o temporal provocou uma morte na Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo. Uma mulher de 47 anos morreu após ser atingida por um deslizamento de terra. Equipes de emergência foram mobilizadas para atender a ocorrência.

Os estragos se espalharam por diferentes regiões da cidade. A Avenida 23 de Maio, o Terminal Bandeira e outras importantes ligações viárias registraram pontos de alagamento. Na Rua Conselheiro Ramalho, um imóvel desabou durante a tempestade. Segundo as informações divulgadas, não havia moradores na construção no momento da ocorrência.

O sistema de transporte público também sofreu consequências. As estações Japão-Liberdade e Paraíso, da Linha 1-Azul do Metrô, registraram entrada de água, afetando equipamentos e áreas de circulação. A estação Trianon-Masp, da Linha 2-Verde, também apresentou transtornos. Apesar dos problemas, a circulação dos trens não foi interrompida.

No Parque do Ibirapuera, na Zona Sul, o lago transbordou e a água invadiu áreas destinadas à circulação de visitantes. A força da inundação levou peixes para fora do reservatório, deixando animais espalhados por trechos do parque. A região da Vila Mariana também registrou chuva intensa e queda de granizo.

O temporal afetou ainda o fornecimento de energia elétrica. Mais de 30 mil imóveis chegaram a ficar sem luz durante o período mais crítico da tempestade, conforme os registros da concessionária Enel. As condições meteorológicas também provocaram cancelamentos e alterações de voos nos aeroportos de Congonhas e Guarulhos.

No trânsito, a situação foi agravada pelos bloqueios e pelo acúmulo de água nas principais avenidas. Segundo a CET, os congestionamentos ultrapassaram mil quilômetros de extensão por volta das 18h30. Diante das dificuldades de deslocamento, a Prefeitura decidiu suspender o rodízio municipal de veículos no Centro expandido.

Entre as 15h e as 18h, o Corpo de Bombeiros recebeu pelo menos 17 chamados relacionados a enchentes, 11 ocorrências envolvendo quedas de árvores e quatro solicitações por desabamentos. A Defesa Civil manteve os alertas à população diante do risco de novos alagamentos e deslizamentos.

De acordo com os meteorologistas, a combinação de calor, umidade elevada e instabilidade atmosférica favoreceu a formação de nuvens carregadas, responsáveis pelas fortes pancadas de chuva. O solo encharcado também aumentou a vulnerabilidade de áreas de encosta.

A previsão indica possibilidade de novas precipitações nesta quinta-feira (15), mantendo a necessidade de atenção em regiões próximas a córregos, passagens subterrâneas e locais com histórico de enchentes.

Além dos prejuízos e transtornos provocados pela tempestade, o alagamento do Anhangabaú recolocou em discussão a eficiência das medidas de prevenção adotadas pela administração municipal. A principal questão ainda sem esclarecimento é por que a passagem não foi completamente bloqueada antes da inundação, apesar dos alertas e da existência de um protocolo específico para esse tipo de situação.

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