EDITORIAL : Jornalistas articulam frentes pró-Lula no segundo turno; mobilização conta com estratégia de divulgação e conteúdo contra Flávio Bolsonaro

  • por Redação
  • Wednesday, 07 de October de 2026
Registros mostram profissionais organizando grupos e ações favoráveis a Lula; no Rio Grande do Sul, circulam convite para “Frentão jornalistas pró Lula” e publicação que utiliza dados sobre ataques à imprensa no governo Bolsonaro para questionar a candidatura de Flávio.(Foto: Divulgação)

 

A disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 também passou a mobilizar grupos formados por jornalistas. Registros divulgados nos últimos dias mostram profissionais e dirigentes da categoria participando de movimentos favoráveis a Lula, com formação de grupos, convocação de reuniões e organização de estratégias de divulgação.

Um dos movimentos identificados ocorreu no Ceará. Rafael Mesquita, presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado do Ceará (Sindjorce), publicou um chamado para a retomada do movimento “Jornalistas com Lula pela Democracia”, iniciativa que também havia sido realizada durante a eleição presidencial de 2022.

A convocação prevê a utilização de um grupo de WhatsApp como espaço de organização, além de debates, articulação entre profissionais e realização de uma plenária. O chamado também pede que os participantes convidem outros jornalistas para integrar o movimento.

No Rio Grande do Sul, registros de conversas em um grupo de WhatsApp mostram outra mobilização. Em uma das mensagens aparece um convite denominado “Frentão jornalistas pró Lula”, acompanhado da identificação “Jornalistas Antifascistas”.

Na mensagem, os responsáveis informam que recuperaram a conta do chamado Coletivo Jornalistas Antifascistas e acrescentam: “organizamos uma estratégia de divulgação. Quem quer participar?”. Na sequência, é disponibilizado um convite para ingresso em outro grupo de WhatsApp.

Antes da divulgação do convite, outra mensagem atribuida a presidente do sindicato dos jornalistas do Rio Grande do Sul registrada no mesmo ambiente questionava: “Vamos fazer algo parecido, marcar posição? Ou, desculpem, já temos/fizemos?”.

Outro registro mostra a circulação de uma publicação identificada como encaminhada do canal SindJoRS, mostra outro conteúdo que foi compartilhado pela presidente do sindicato gaúcho.

A publicação traz as frases “Quando um jornalista é agredido, todos jornalistas são atingidos” e “Eu não voto em quem ataca jornalista. E você?”. O material reproduz conteúdo atribuído originalmente ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal.

A peça informa que a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) contabilizou 1.442 casos de violência contra jornalistas e ataques à imprensa entre 2019 e 2022, período correspondente ao governo de Jair Bolsonaro. Em seguida, relaciona esse período à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro por meio da pergunta: “Você acha que com o filho será diferente?”.

Ao final, o material afirma “Não votaremos em quem não nos respeita! E você?” e pede que a publicação seja curtida, comentada e compartilhada.

Pesquisa aponta predominância de identificação com a esquerda entre jornalistas

O posicionamento ideológico dos jornalistas brasileiros já foi objeto de levantamento acadêmico. A pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro 2021 identificou predominância de profissionais que se autodeclararam integrantes do campo ideológico da esquerda.

Entre 1.978 profissionais que responderam à questão sobre posicionamento político, 52,8% declararam-se de esquerda, 25,9% de centro-esquerda e 2% de extrema-esquerda. Somadas, essas três categorias correspondem a 80,7% dos participantes que responderam à pergunta.

No mesmo levantamento, 4,7% declararam-se de centro, 2,5% de centro-direita, 1,4% de direita e 0,1% de extrema-direita. Outros participantes preferiram não informar ou utilizaram classificações diferentes.

O levantamento não estabelece que 80,7% de todos os jornalistas brasileiros sejam de esquerda. O percentual corresponde aos profissionais participantes daquela pesquisa e às respostas obtidas no levantamento.

A pesquisa também abordou filiação partidária. Apesar da predominância da identificação ideológica com a esquerda, 89,7% dos entrevistados declararam não possuir filiação a partidos políticos. Entre os partidos citados pelos profissionais filiados, o PT apareceu com 4,1% do total de entrevistados, seguido pelo PSOL, com 1,8%, PCdoB, com 0,8%, PSB, com 0,4% e PSDB, com 0,3%.

Uma pesquisa anterior sobre o perfil dos jornalistas brasileiros, realizada em 2012, também havia identificado maior presença de profissionais que se declaravam de esquerda. Naquele levantamento, 49% se identificaram dessa maneira, enquanto 30% rejeitaram uma classificação ideológica.

Fenaj e SindJoRS já declararam apoio eleitoral a Lula

Além das pesquisas sobre o perfil ideológico dos profissionais, existem registros de posicionamentos eleitorais adotados por entidades representativas da categoria.

No segundo turno da eleição presidencial de 2022, a Federação Nacional dos Jornalistas declarou publicamente apoio à candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. A entidade divulgou uma carta aberta defendendo o voto no candidato do PT e apresentou questões relacionadas à democracia, liberdade de imprensa e direitos dos trabalhadores entre os argumentos para justificar a manifestação.

No Rio Grande do Sul também houve manifestação pública. Em outubro de 2022, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Sul (SindJoRS) publicou em seu site uma manifestação de dirigentes de entidades de jornalistas, radialistas e trabalhadores das indústrias gráficas defendendo o voto em Lula no segundo turno.

O posicionamento contou com participação da direção do sindicato dos jornalistas gaúchos e foi divulgado nos canais da própria entidade.

Após a eleição de 2022, a Fenaj também entregou ao então presidente eleito Lula uma plataforma com pautas consideradas prioritárias para a categoria, envolvendo temas como democratização das comunicações, fortalecimento do jornalismo como atividade de interesse público e políticas relacionadas à Empresa Brasil de Comunicação.

Esses registros documentam posicionamentos eleitorais favoráveis a Lula adotados pela Fenaj e por dirigentes ligados ao SindJoRS em 2022. As manifestações institucionais não estabelecem a posição individual de todos os jornalistas representados pelas entidades.

Outras organizações jornalísticas adotaram formatos diferentes de participação no debate eleitoral. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), por exemplo, participou de iniciativas relacionadas à defesa do processo eleitoral, liberdade de imprensa e segurança dos profissionais e apresentou compromissos a diferentes candidatos à Presidência.

Ataques a jornalistas também foram registrados nos governos Dilma e Lula

O total de 1.442 ocorrências apresentado na publicação que circulou no Rio Grande do Sul tem como fonte a própria Fenaj e corresponde aos levantamentos realizados pela entidade entre 2019 e 2022. Foram contabilizadas 208 ocorrências em 2019, 428 em 2020, 430 em 2021 e 376 em 2022.

Os relatórios da entidade reúnem diferentes categorias de ocorrências relacionadas à atividade jornalística. O levantamento é produzido pela própria Fenaj, e não por um órgão público independente.

O total de 1.442 também não representa 1.442 ataques atribuídos pessoalmente a Jair Bolsonaro. No relatório referente a 2022, por exemplo, a própria Fenaj atribuiu 104 das 376 ocorrências daquele ano diretamente ao então presidente.

Os levantamentos históricos da categoria registram episódios de violência contra jornalistas também antes de 2019. Em 2011, primeiro ano do governo Dilma Rousseff, a Fenaj contabilizou 60 casos. Foram registradas agressões físicas e verbais, ameaças, assassinatos, atentados, censura, processos judiciais e casos classificados pela entidade como detenção e tortura.

Em 2015, durante o governo Dilma, foram contabilizadas 137 ocorrências, contra 129 no ano anterior. O levantamento incluiu agressões verbais, ameaças ou intimidações, atentados, impedimentos ao exercício profissional, ações judiciais, prisões, censura e assassinatos.

Naquele ano, 28 ocorrências foram atribuídas a policiais militares, principalmente durante coberturas de manifestações. Políticos, assessores e parentes apareceram em 21 registros, enquanto manifestantes foram apontados em outros 19 casos.

Os registros continuaram após Lula retornar à Presidência em janeiro de 2023. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo contabilizou 330 alertas em 2023, envolvendo jornalistas, veículos e a imprensa. Em 2022, a mesma organização havia registrado 557.

Os registros de 2023 incluíram discursos classificados pela Abraji como estigmatizantes, agressões, ameaças, processos civis e penais, restrições na internet, dificuldades de acesso à informação e outras ocorrências. Parte dos casos foi registrada durante os atos de 8 de janeiro, em Brasília, quando profissionais que trabalhavam na cobertura foram agredidos.

Em 2024, a Abraji contabilizou 210 alertas, redução de 36,4% em relação a 2023. Segundo a entidade, aproximadamente 41% dos episódios envolveram agressões físicas, ameaças ou destruição de equipamentos.

A Fenaj, utilizando metodologia própria, contabilizou 181 episódios em 2023 e 144 em 2024. Entre os registros de 2024 estavam 30 agressões físicas, 23 ocorrências classificadas como assédio judicial, 11 de censura e seis envolvendo tentativa de homicídio ou ameaças de morte.

Fenaj e Abraji utilizam metodologias próprias de monitoramento. Por isso, os números correspondem às respectivas bases e critérios utilizados por cada organização.

No Rio Grande do Sul, SindJoRS e Fenaj divulgaram em 2026 uma nota envolvendo o jornalista Maicon Schlosser, do portal Fronteira 360, em São Borja. Segundo as entidades, o profissional recebeu mensagens agressivas, ofensivas e intimidatórias após reportagens relacionadas a mortes ocorridas em ações da Brigada Militar.

Durante a campanha eleitoral de 2026, levantamento da Coalizão em Defesa do Jornalismo, em parceria com o Labic/Ufes, apontou 2.630 ataques on-line contra imprensa e jornalistas entre 16 e 29 de agosto. Foram 1.548 registros no Instagram e 1.082 no X, direcionados a 91 veículos, 46 jornalistas e referências à imprensa de maneira geral.

Órgãos e sindicatos ligados à entidades de classes não deveriam tomar partido para viés político e nem incentivar o ódio e a agressividade contra candidatos ou presidentes, ex-presidentes, se mantendo assim neutros e com apenas seus integrantes se manifestarem individualmente sem ter que fazer militância dentro de redações, estabelecimentos de ensino superior e incentivar a militância contra lado político.

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