Bolsa despenca, dólar dispara e mercado internacional reage à reeleição de Lula em meio a suspeitas de irregularidades eleitorais

  • por Redação
  • Monday, 26 de October de 2026
Resultado do segundo turno provoca forte instabilidade nos investimentos brasileiros, pressiona ações de grandes empresas e amplia preocupações econômicas, enquanto a oposição questiona procedimentos adotados durante a votação.(Foto: Divulgação)

 

A reeleição do presidente atual no segundo turno das eleições presidenciais, realizado neste domingo (25), provocou uma forte reação negativa no mercado financeiro brasileiro. Na manhã desta segunda-feira (26), o dólar apresentou valorização expressiva, a Bolsa de Valores registrou perdas acentuadas e ações de empresas brasileiras negociadas no exterior sofreram desvalorização. O cenário ocorre em meio a questionamentos sobre possíveis irregularidades no processo eleitoral.

Ele venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) com aproximadamente 51,78% dos votos válidos, contra 48,22% do adversário. O resultado contrariou as expectativas de parte dos investidores, que apostavam em uma mudança na condução da política econômica, principalmente em relação ao controle dos gastos públicos e ao equilíbrio das contas do governo federal.

O impacto foi imediato. O dólar comercial chegou a registrar valorização superior a 12%, ultrapassando R$ 5,60 durante as negociações da manhã. Na sexta-feira (23), último dia de funcionamento do mercado antes da votação, a moeda norte-americana havia encerrado o pregão cotada a R$ 4,989.

Na Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, a pressão sobre as ações levou ao acionamento do mecanismo conhecido como circuit breaker, utilizado para interromper temporariamente as negociações quando o Ibovespa registra uma queda de 10% em relação ao fechamento anterior.

A paralisação de 30 minutos tem como objetivo reduzir a intensidade das oscilações e permitir que os participantes do mercado reavaliem suas operações. Antes da abertura do pregão regular, os contratos futuros do Ibovespa já apresentavam perdas expressivas, chegando a recuar aproximadamente 20%.

A reação negativa representa uma mudança significativa em relação ao comportamento registrado após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Na ocasião, Flávio Bolsonaro terminou a votação à frente de Lula, impulsionando expectativas de alterações na política econômica.

No primeiro pregão após aquela votação, o Ibovespa avançou 7,70%, alcançando 206.911 pontos, enquanto o dólar recuou 4,11%. A Bolsa brasileira chegou a superar a marca dos 200 mil pontos, favorecida pelo ingresso de recursos estrangeiros e pelo otimismo de investidores.

Com a confirmação da reeleição, parte desses ganhos passou a ser revertida.

Além da repercussão econômica, o resultado das eleições presidenciais passou a ser alvo de questionamentos sobre possíveis irregularidades no processo de votação. Flávio Bolsonaro anunciou que pretende recorrer à Justiça para solicitar a anulação do segundo turno, alegando desigualdade nas condições de votação após a decisão que prorrogou o funcionamento de determinadas seções eleitorais.

A controvérsia começou depois que o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), advogado pessoal e e que tem o atual presidente como padrinho de casamento autorizou a ampliação do horário de votação das 17h para as 19h em razão de dificuldades enfrentadas por eleitores para chegar aos locais de votação. A decisão ocorreu quando milhares de urnas já haviam encerrado suas atividades, impossibilitando a aplicação da medida em todas as seções.

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, reconheceu que a alteração exigiu adaptações operacionais, mas afirmou que os procedimentos adotados não comprometeram a totalização dos votos.

A Polícia Federal também instaurou investigações relacionadas a possíveis crimes eleitorais durante o segundo turno, incluindo suspeitas de restrições ao transporte de eleitores. Até as 19h de domingo, haviam sido contabilizados seis inquéritos policiais e 57 termos circunstanciados relacionados a ocorrências eleitorais.

As denúncias levantadas e a contestação anunciada pela oposição ampliaram os questionamentos sobre a condução do processo eleitoral. Entretanto, até o momento, não há comprovação de fraude na contagem dos votos nem decisão judicial que invalide o resultado anunciado pela Justiça Eleitoral.

A possibilidade de uma disputa judicial sobre o pleito acrescenta um fator de incerteza política ao cenário brasileiro, embora não seja possível atribuir exclusivamente a esses questionamentos as oscilações registradas no mercado financeiro.

A instabilidade também atingiu os juros futuros, que apresentaram forte elevação. Os contratos com vencimento em janeiro de 2031 chegaram a registrar taxas próximas de 15,25% ao ano, indicando que investidores passaram a exigir uma remuneração maior para assumir riscos relacionados à economia brasileira.

O aumento dessas taxas pode provocar consequências para empresas e consumidores, uma vez que influencia o custo dos financiamentos, a concessão de crédito e as expectativas para a taxa básica de juros, a Selic.

Diante da instabilidade, o Tesouro Nacional cancelou leilões de títulos públicos previstos para os dias 27 e 29 de outubro. A decisão ocorreu em um momento de pressão sobre os preços dos papéis da dívida pública brasileira.

A repercussão internacional começou ainda na noite de domingo, quando as primeiras negociações realizadas após a confirmação do resultado eleitoral apontaram uma desvalorização expressiva dos investimentos ligados ao Brasil.

Na Bolsa de Nova York, o fundo EWZ, que reúne ações de importantes companhias brasileiras, chegou a cair mais de 26% nas negociações anteriores à abertura oficial do mercado norte-americano.

Entre as instituições financeiras, os recibos de ações do Itaú apresentaram perdas próximas de 28%, enquanto os do Bradesco recuaram aproximadamente 25%. A Petrobras também foi atingida, com desvalorização em torno de 23%.

As ações da XP registraram uma das quedas mais expressivas, superior a 45%, enquanto os papéis do Nubank recuaram cerca de 20%. Vale e Embraer apresentaram perdas menores, de aproximadamente 3,3% e 3,8%, respectivamente.

Os percentuais correspondem às oscilações registradas durante o pré-mercado norte-americano e não representam necessariamente os valores de fechamento das ações.

O movimento também alcançou companhias estrangeiras com forte presença no Brasil. Na Europa, ações de empresas como Santander e Telefónica sofreram pressão após o resultado eleitoral, refletindo a preocupação dos investidores com os possíveis efeitos da desvalorização do real sobre seus resultados financeiros.

Apesar das perdas relacionadas ao Brasil, as principais bolsas internacionais não apresentaram uma queda generalizada.

Na Europa, o índice alemão DAX chegou a avançar 0,69% nas primeiras horas da manhã, enquanto o CAC 40, da França, registrou valorização de até 0,89%. O Euro Stoxx 50, que reúne grandes companhias da zona do euro, também apresentou ganhos no início das negociações.

Na Ásia, os mercados encerraram o pregão com resultados diferentes. O índice Nikkei 225, do Japão, caiu 0,80%, enquanto a Bolsa de Xangai avançou 0,19%. Na Austrália, o principal indicador do mercado acionário registrou alta de 0,17%.

Nos Estados Unidos, os contratos futuros dos principais índices de Wall Street apresentaram pequenas valorizações durante a manhã, em meio às expectativas para a divulgação de balanços de grandes empresas de tecnologia e para as próximas decisões do Federal Reserve, o banco central norte-americano.

O comportamento das bolsas internacionais demonstra que os efeitos mais intensos da eleição brasileira ficaram concentrados nos investimentos diretamente ligados ao país. Os demais mercados continuaram influenciados por fatores próprios, como juros, inflação, resultados empresariais e tensões geopolíticas.

Outro ponto acompanhado pelos investidores é o comportamento do petróleo. O barril do tipo Brent registrou queda de aproximadamente 1,6% nesta segunda-feira, sendo negociado perto de US$ 110, após uma sequência de altas provocadas pelas tensões no Oriente Médio.

No Brasil, a principal preocupação do mercado está relacionada à capacidade do governo de equilibrar as contas públicas, controlar o crescimento da dívida e apresentar medidas que garantam previsibilidade econômica.

A indicação da equipe econômica para o próximo mandato e as primeiras sinalizações sobre a política fiscal deverão influenciar o comportamento dos investimentos nas próximas semanas.

A elevação do dólar também poderá atingir diretamente a população brasileira. Caso seja mantida, a valorização da moeda norte-americana tende a encarecer produtos importados, componentes industriais, equipamentos eletrônicos e insumos utilizados por diferentes setores da economia.

O aumento dos custos de importação também pode pressionar os preços internos, dependendo da duração do movimento cambial e da capacidade das empresas de absorver os reajustes.

No setor produtivo, a alta dos juros futuros representa outro fator de preocupação, pois pode dificultar investimentos, encarecer financiamentos e afetar a expansão das atividades econômicas.

Por outro lado, empresas exportadoras que recebem em dólar podem obter ganhos de receita em reais com a valorização da moeda estrangeira, embora o resultado dependa dos custos de produção e das condições do mercado internacional.

Com o resultado das urnas anunciado e a possibilidade de questionamentos judiciais, as atenções se voltam para as próximas decisões da Justiça Eleitoral, as medidas econômicas do governo e a relação do Executivo com o Congresso Nacional.

A intensidade das oscilações desta segunda-feira demonstra a mudança nas expectativas dos investidores após o segundo turno. Entretanto, os movimentos registrados nas primeiras horas de negociação ainda não permitem determinar o desempenho da economia brasileira durante o próximo mandato.

O mercado financeiro deverá continuar acompanhando tanto os desdobramentos políticos quanto as sinalizações econômicas do governo, fatores que poderão influenciar o comportamento da Bolsa, do dólar e dos investimentos estrangeiros no país.

Artigos Relacionados